Na sua intervenção no Seminário Diplomático 2018, dia 3 de janeiro, Enrico Letta, antigo primeiro-ministro de Itália, advertiu que 2018 será determinante para a Europa, alertando para o risco de crescimento do populismo nas próximas eleições europeias se este for “um ano perdido”.

O ano de 2018 será “essencial para o futuro da Europa”, defendeu Letta, que atualmente é reitor da Faculdade de Assuntos Internacionais de Paris.

“Não pode acontecer que 2018 seja um ano do nada, um ano de transição, um ano em que não aconteça nada”, sob pena de, nas próximas eleições europeias, em 2019, haver “novamente o risco de uma subida populista a nível europeu, como já vimos em alguns países europeus, mas que não vimos até agora no Parlamento Europeu”, instituição que esteve “até agora protegida dos grandes problemas do antieuropeísmo”.

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Enrico Letta mencionou ainda que 2019 será “um ano de grande mudança na Europa”, com novas lideranças na Comissão Europeia, no Conselho Europeu e no Banco Central Europeu.

No ano passado, com as eleições presidenciais francesas, a Europa esteve “muito perto de perder tudo”, disse.  “Pela primeira vez na nossa vida, apercebemo-nos que a Europa se tornou mortal. Podemos perdê-la, podemos perder tudo”, alertou.

Os acontecimentos sucedem-se “com uma rapidez” que reclama uma capacidade de a Europa “ser reativa e não reagir apenas convocando reuniões para dois meses depois”.

“É necessário um discurso político mais forte, com o coração, e com a possibilidade de dizer que as coisas que fazemos são as coisas para o futuro”, destacou.

Letta apontou que este ano tem também algumas dificuldades, como o facto de a Alemanha ainda não ter governo ou Itália ir passar novamente por eleições legislativas antecipadas. Por outro lado, com a saída da União Europeia, o Reino Unido transmite uma mensagem de que a Europa se tornou “um problema” e “já não funciona”.

Sobre o Brexit, o antigo governante italiano elogiou o “trabalho muito positivo” das negociações entre Londres e Bruxelas, com os 27 países a apresentar uma “posição comum”.

Neste processo, o antigo governante identificou “pequenas contradições”, nomeadamente o facto de se procurar ter “um bom resultado concreto”, ao mesmo tempo que se quer mostrar ao resto do mundo que sair da UE “não é uma escolha muito inteligente”.

A segunda fase das negociações, que agora se inicia, será “mais difícil, com maior risco de divisão interna”, disse.

Para Letta, uma das questões-chave para o futuro da Europa passa pela questão migratória e pela capacidade de enfrentar a próxima crise, com a união económica e monetária.

“As pessoas podem aceitar o fluxo migratório, se tiverem a certeza que será integrado com o respeito pela comunidade nacional e local, com a aprendizagem da língua. É necessário que isto seja organizado e harmonizado”, sustentou.

Sobre a crise migratória, Enrico Letta elogiou “as escolhas” de Portugal, “um país que sabe o que significa a palavra solidariedade, que é a chave da Europa”.

Com Lusa